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terça-feira, 3 de agosto de 2010

SURREAL



Tinha uns nove anos de idade...

Ela, mais nova, tinha uns olhos vivos que me miravam cúmplices sempre que, pela manhã, eu saía de casa e imediatamente a procurava.

Corria na minha direcção roçando o corpo no meu. As minhas mãos acariciavam-na e sentia que ela gostava.

A boca fina, os pés descalços, o corpo aveludado, tornavam-na a minha grande amiga, confidente dos meus sonhos de criança.

A Maria ouvia, em silêncio atento, tudo o que eu lhe confessava.

Partilhava com ela os meus anseios, as fantasias das minhas brincadeiras.

Entre nós, de há muito, se estabelecera uma relação que mantínhamos em segredo.

Que se fortalecia a cada dia que passava...

Dava-lhe guloseimas que ela saboreava, suavizando o olhar que tanto me enternecia, forma de me mostrar o seu agradecimento.

Entre muitas outras, fora aquela que eu escolhera.

Não porque fosse especialmente bonita. Mas porque o seu olhar era diferente do das outras, porque faiscava quando se cruzava com o meu.

Ela abandonava as brincadeiras com as amigas, correndo para mim logo que me via...

...........................

Numa segunda-feira, quando eu regressava da escola para almoçar, estranhei não a ter visto.

A minha mãe chamou-me para almoçar. Entrei em casa, sentei-me à mesa já posta e o meu coração acelerou loucamente.

Ali estava a Maria, nua, o lindo corpo dourado, deitada em cima da mesa.

A minha mãe tinha decidido assar no forno a minha galinha de estimação, ali ainda fumegante...

Não consegui almoçar...

Rui Felício

18 comentários:

  1. Um dia sem comer pito? Paciência...Serviu de treino para outros que, com certeza, se repetiram, não?
    (eheheheheeh...)

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  2. Nem as galinhas lhe escapam...

    Carlos Viana

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  3. Ora aqui está uma história linda de morrer assada).
    E que ficaria muito bem no meu blog porcalhoto. Assim tu autorizasses, Rui Felácio...

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  4. Este texto tem o cunho muito pessoal do Felício. Alguém me disse, que "a escrita do Felício é ele". Eu concordo em absoluto. Há sempre algo de subjacente ao que escreve. Neste caso falamos de sensibilidade. Este "drama" de se gostar de um animal, mesmo sendo comestível, acontece. Lembro-me da pata Margarida, que terminou os seus dias na praia do Cabedelo. A sobremesa foi ácida, quando me apercebi da tragédia. Uma narração que parece fácil, mas não é. É a tal faceta do Rui a falar mais alto. A sensibilidade na crista da onda. E é por isso que tu, Rui, és cá dos meus, meu Jurista-Coimbrão ...

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  5. ... as saudades da pitinha falaram mais
    alto..."não te como" porque seria incesto!!!

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  6. A Olinda a usar frases de duplo sentido...

    Para além de incesto, poderia também ser pedofilia, dada a sua idade.

    De qualquer modo, não a comi porque era amigo dela. E isso poderia configurar um outro crime: o de canibalismo.

    Porque eu considerava-a como se de uma pessoa se tratasse...

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  7. Honro-me de ter a mesma matriz do Quito. Por isso admiro a sua sensibilidade.

    Em relação a mim mesmo, às vezes combato-a para que não se confunda com pieguice, mas é mais forte do que eu.

    É também mais forte do que ele, calculo.
    Basta ler como ele escreve.
    Mesmo quando mistura uma pitada de humor para temperar...

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  8. Neste caso, ficaste de bem com a tua consciência...claro que sobrou, podendo até o que sobejou ter ido para o lixo!
    Triste destino da "pita" de estimação!

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  9. É verdade, Viana,nem as galinhas lhe escapam...mas a prosa dele é de luxo...

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  10. Compreendite...como diria,Vasco Santana!
    Mas maliciosamemte apeteceu-me
    "atesanar-te(?)"....

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  11. Atesanar-me? Será que isso também tem duplo sentido?

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  12. As histórias do Rui têm o mérito de nos manter presos até ao final! Às vezes, pensamos que adivinhamos como vai acabar e enganamo-nos redondamente.
    A única coisa que adivinhamos logo no início é que é um texto do Felício!... Rima e é verdade!

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  13. Alto gabarito.
    Um Abraço.
    Tonito.

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  14. Como diz o Alfredo, fácil é adivinhar o autor logo que lido o primeiro parágrafo
    Como diz o Alfredo, no adivinhar o final do enredo é que está o segredo.

    Se não rima, rimasse. Mas é verdade.

    Carlos Viana.

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  15. Ao pressentir ser o Rui Felício o autor do texto eu começo a ler,mas logo salto até ao final para saber o epílogo!

    Imaginei ser uma cadelinha...saiu galinha! (até rima).

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  16. Poderia ser uma cadelinha se fosse na China onde parece que as comem...

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  17. Celeste,

    Trava a curiosidade e espera.
    Goza os momentos de incerteza.
    Porque o nosso amigo é uma fera,
    Transforma o mundo cão, numa beleza.

    Não sai nada de jeito! Deve ser da hora que não é a mais propícia para divagações poéticas.
    Que fique a intenção.
    Um abraço para ambos os dois...

    Carlos Viana.

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